Humberto Banal Batista da Silva

Diretor Financeiro da Unicred Petrópolis ¿ 2005-2009


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História de Vida - Humberto Banal Batista da Silva



P/1 – Como foi compatibilizar a sua carreira de médico com a de executivo?
 

R – Eu diria que partindo desta análise, neste teste vocacional, em que viram Diplomacia e Medicina. Talvez tenham visto ali um pouco de gestão em Medicina, talvez. Por quê? Eu tinha sido diretor do grêmio estudantil, depois diretor da Associação Petropolitana de Estudantes. Na época de propaganda, isso em 1965, mais ou menos 64, 65, eu estava terminando o segundo grau. Entrei na faculdade, primeiros dias de aula, os colegas que já me conheciam de Petrópolis, e alguns eram dali, a maioria era de fora. Ao eleger o representante de turma, quando vi, meu nome estava no quadro sendo indicado para ser representante de turma. Fui eleito. Fiquei representante de turma seis anos. E acabei sendo presidente do diretório acadêmico, um ano. Então, sempre tinha alguma participação de coletividade, entendeu? Depois surgiu esse trabalho no escritório da Medicina de grupo, depois o convite para Unimed para fazer uma coordenação médica, superintendência. E aos pouquinhos, depois, assumi a presidência da Unimed Petrópolis, foi o cargo eleito, o primeiro que exerci. E sempre fazendo algum curso, algum aprimoramento. Quando estive na Federação, fizemos o curso também de gestão da Getúlio Vargas, em São Paulo. Além da USP, cheguei a fazer um curso de gestão financeira na Getúlio Vargas, junto com o gerente financeiro da Unimed do Brasil, que hoje é da Unimed Rio. Então, procurei me capacitar para poder exercer essa função com melhor qualidade. Quando estava como diretor Financeiro da Brasil, eu fiz um curso de gestão da área financeira na Getúlio Vargas, por iniciativa própria. Eu sempre dividi. Eu acho que me satisfaz, quando estou no consultório atendendo um a um. Mas, talvez do jeito que sou eu não gostaria de ficar o dia inteiro no consultório atendendo um a um. Quando estou na Unicred, estou fazendo um trabalho que atende uma coletividade. Fiquei muito satisfeito agora nesse ano, com a nova gestão da Unimed ter entrosado, em função da Unimed Petrópolis ser pessoa jurídica sócia da Unicred. E o nosso estatuto permitir que os funcionários da pessoa jurídica, podem ser sócios da cooperativa. Nós trouxemos os funcionários da Unimed a serem sócios da Unicred Petrópolis. São cooperados iguais a nós. A folha de pagamento saiu do Banco e veio para nós. E isso foi um trabalho social. E levamos aos funcionários que estavam com diversos comprometimentos financeiros, empréstimos de Bancos que não são baratos. Outros até na mão de agiota, e que vinham dizendo: “Não vinham dormindo.” Conseguiu o empréstimo conosco por caução do salário. “Olha, estou dormindo,” que negociou para 24 meses, uma forma com valores privilegiados. Esse privilégio de você levar para o funcionário da cooperativa médica que trabalha com você. A Unimed é um tripé. É o usuário que paga o plano, o médico que trabalha, mas tem os funcionários que estão no dia-a-dia. São três elos principais. E eles também sendo sócios. Fizemos uma pesquisa agora de opinião, depois de três meses de estarem usando a cooperativa, 97% deles se dizem plenamente satisfeitos de ter trocado de Banco para cooperativa. Isso é uma satisfação que não tem tamanho, entendeu?
 

P/1 – Essa cooperativa de crédito está em todas as Singulares? Como é que ela funciona?
 

R – A Unicred funciona como sistema paralelo. Não está em todas as Singulares, como uma Singular. Por exemplo, a Unicred Petrópolis, ela atinge Três Rios e Teresópolis com dois Postos de Atendimento Cooperativo, são PACs. Como se fossem agências nossas. Porque para você ter uma Unicred em cada uma teria que ter uma estrutura que onera, entendeu? Em termos de custos bancários. Então, você tem uma contabilidade, hoje, na sede da central, no Rio de Janeiro. E a funcionária que faz a nossa contabilidade é centralizada no Rio de Janeiro. Várias centrais já agem assim. Então, são 300 e tantas Unimeds, são 130 Unicreds. Pode ser que no futuro isso ainda venha necessitar de consolidação. O Sistema teve a fase de grande expansão. O Doutor Nívio quando fez o depoimento, estava conversando comigo durante a  viagem.A Unimed em Minas, com 60 e tanta Unimeds, houve alguma organização de consolidação de Singulares Unimed, Singulares Unicred para poder acompanhar os custos administrativos. As Unicreds, praticamente, funcionam ao lado de cada Unimed como Singular Unicred ou um posto de atendimento cooperativo. Tem algumas Unicreds que atingem 15 cidades ou mais, são bem amplas. E têm vários PACs é a forma de funcionar. Quase todos os médicos, em sua grande maioria, usam a cooperativa para seus empréstimos, para as suas aplicações. E capitalizam também. As Unicreds, a diferença é que no final do ano, o resultado é dividido pelos sócios, na proporção das operações que elas fazem. Quer dizer, se a Unimed está fazendo 40 anos, o Sistema Unicred, nascido no Rio Grande do Sul em 1989, como a primeira, e com a segunda em Passo Fundo e a terceira em Petrópolis, está completando 18 anos também, entendeu? Então, é uma outra história para ser contada depois ao lado  da Unimed, da Seguradora e tudo mais.
 

P/1 – O senhor poderia destacar algum fato marcante na sua carreira de Medicina?
 

R – Da minha carreira de Medicina, logo no início, eu acho que o fato marcante foi ter constituído o primeiro centro de Terapia Intensiva em Petrópolis. Petrópolis não tinha CTI. No estado do Rio de Janeiro, praticamente, naquela época, nós tínhamos o Centro de Terapia Intensiva apenas nos hospitais públicos. Era o Hospital do Andaraí, onde fiz minha formação.  E o   Hospital Servidores do Estado, que na época era o hospital principal, que atendia todos os funcionários do Governo Federal, ainda resquício do antigo Distrito Federal, e o Hospital Souza Aguiar. Os hospitais privados não tinham terapia intensiva. Nem os mais sofisticados da cidade do Rio de Janeiro. Porque não tinha ainda uma estrutura, não tinha tanto convênio que suportasse isso. E os doentes privados praticamente, montavam um CTI no quarto. Levavam equipamento. Então, em Petrópolis, fazíamos assim também. Mas conseguimos convencer a direção do Hospital Santa Teresa, que é da Congregação Santa Catarina, a fundar um CTI. Eu e mais três colegas, cada um dando plantão, segunda, terça, quarta e quinta. E de sexta, sábado e domingo, os mesmos revezando, um folgava. Começamos um CTI na cidade. E aquilo desenvolveu,  não sei se Niterói teve antes. Mas, talvez tenha sido o primeiro CTI do interior do Estado do Rio de Janeiro. Em hospital misto, tinha Sistema Único de Saúde (SUS) por convênio, mas também era privado, um dos primeiros. E isso fez com que, praticamente, observássemos junto à clientela, no início, um fato também diferente. Quando chegava ao quarto um paciente grave, às vezes, o colega estava acompanhando: “Ih, está grave, me deixa chamar o CTI para dar um parecer.” Deparava com paciente com uma insuficiência respiratória, às vezes tinha que entubar, começar a ventilar no quarto. “Olha, precisa descer para o CTI.” Porque precisava ver no monitor, manter no respirador. “O que é CTI?” A família nem sabia o que era CTI. Isso em 1974. “O que é CTI?” Eu explicava rapidamente e falava assim: “Ok, vamos descendo”. E vinha a família vinha atrás. Chegava, abria a porta, falava assim: “Todo mundo, não!” “Mas entra um ou dois.” Colocava o paciente no leito. Botava. Monitorizava. Botava no respirador. “Olha, têm mais cinco pacientes.” Eram seis leitos. “Têm mais cinco pacientes, ninguém está acompanhado, aqui não fica companhia” “Vocês, por favor, aguardem lá fora, depois vou dar mais informação.” E aos pouquinhos a população foi entendendo. Eu diria que nem um ano levou para acontecer o contrário. O paciente começava a passar mal no quarto e, às vezes, o médico não estava lá, o plantonista, e ele dizia: “É melhor ir para o CTI.” Entendeu? Porque já correu a idéia do que era uma terapia intensiva. De alguma forma, na vida médica, o consultório de cardiologia já não é de hoje, há muito tempo implantamos a idéia de terapia intensiva em Petrópolis. E hoje, cada hospital tem o seu. A coisa evolui. E, realmente, salva vidas. Eu mesmo me beneficiei nas duas cirurgias que eu fui submetido de ser atendido em Petrópolis na urgência. Que foi uma dissecção aguda da aorta. Coisa grave, que é um descolamento da parede da aorta. Os colegas optaram por me transferir, pela raridade, cada milhão de pessoas, 15 casos acontecem, sendo que metade pode morrer no ato. E vim aqui para São Paulo e fiquei em terapia intensiva, na primeira cirurgia. Depois tive que re-operar três anos depois. Então, fiquei em CTI um bom tempo. E é bom ter sido o médico que trabalhou, para entender, quando vira paciente. Então, você tem as duas; enxergar os dois lados da moeda e valorizar a terapia intensiva. Então, um ponto. E trabalhei também na Secretaria de Saúde, com postos de saúde. Chefiando como médico, enfim, como público. E na direção do hospital em Petrópolis, o Hospital Cid Carneiro, onde pude destacar que o hospital tem dificuldades de verbas, e agora foi reconhecido como hospital de ensino, porque a Faculdade de Medicina utiliza o hospital, enfermagem, nutrição, fisioterapia, que é da Universidade Católica. Mas enquanto diretor, ter participado da implantação da nova maternidade, com um parto humanizado. Então, têm unidades de obstetrícia em que as parturientes do SUS, sem custo nenhum, fazem ambulatoriais, fazem assistência pré-natal nos postos de saúde dos ambulatórios. Vêm para o hospital e tem o parto num quarto com banheiro, o marido fica ao lado. Se o parto é normal, o que acontece em 60% dos casos, 40% é cesárea. Porque o hospital é de alto risco. Então as outras maternidades mandam para lá, pois tem Unidade de Terapia Intensiva (UTI), neonatal também e essa parturiente tem o filho no próprio quarto. A cama vira uma maca. E não precisa sair. Não tem diferença do particular. Com uma grande vantagem: ela tem grandes chances de poder ter o parto normal. Se for do convênio, ela tem grandes chances de ser; em cada dez, como eu digo, em cada dez partos, nove e meio costumam ser cesáreas. Porque, o décimo ia ser cesárea, não deu tempo, nasceu no corredor, no elevador. Então, este é o meio. Acabou sendo parto normal. Nós precisamos também nos convênios, inverter essa ordem que não está coerente. Porque uma população de convênio tem parto cesárea predominante? Por que na área pública? Com um bom resultado, tem, e não é forçado. Se precisar de cesárea, faz. Mas tem que ter indicação médica, entendeu? O outro lado dos hospitais, que também é importante e eu citei pouco, é que participamos também do Unihosp que existiu e que era a Empresa de Hospitais Unimed. Reunimos os hospitais Unimed. Quando compramos o hospital da Unimed Petrópolis, ele era o sétimo. Com oito hospitais, realizamos em 1970-1992, 20 anos da Unimed. O primeiro encontro de hospitais Unimed em Petrópolis. O encontro foi o marco zero. Porque depois fizeram o primeiro simpósio de hospitais aqui em Guarulhos, no ano seguinte. Hoje são 60 hospitais. Também outra coisa que desenvolveu muito: a cultura. Porque naquela época a cultura de ter hospital era contraditória de você ter Unimed. Hoje em dia, cada Singular define. Às vezes, é uma questão de mercado e há necessidade de discutir. E ao fazer o encontro de hospitais, quando eu participei já do terceiro ou quarto encontro no Ceará, um médico brasileiro, Humberto Novaes, que é da Organização Mundial de Saúde, quando citei a estatística que o nosso na época tinha 80% de cesariana, ele estranhou. Hoje dá 90. É. “Como é que pode isso?” Porque nos outros países que ele visitava não via isso. “Mas isso é setorizado nos convênios.” Quer dizer, então essa relação médico–paciente tem que modificar de forma, digamos assim, que tenhamos uma possibilidade. Porque não chamar de parto normal o que consideramos como parto, eu chamo parto natural, porque o normal é o que acontece mais. O que acontece mais é a cesárea. Então, nós temos que pensar em formas de fazer educação para população e também na área médica de forma com que o resgate do parto natural aconteça. E o humanizado nessa maternidade é uma satisfação muito grande porque na área pública você tem essa possibilidade. Então, também minha atividade na área pública foi muito boa. Mas é muito desgastante ser diretor de hospital público, onde você tem limitação de vaga, limitação de recursos. Fiquei lá quase três anos como diretor e acho que cumpri minha missão. Hoje tenho uma atividade de supervisor, mas na área administrativa. E não de executivo.